“Você está demitido”

  • Renato Nalini

Isso é o que ninguém gosta de ouvir. Mas, infelizmente, será uma frase muito utilizada daqui em diante. É provável que ela venha sob a forma digital. Uma tendência contemporânea é a fuga ao constrangedor. Mandar alguém embora é sempre um constrangimento. Então o whatsApp servirá para essa despedida.

As máquinas assumem boa parte das funções repetitivas. A inteligência empresarial, que coleta e organiza informações sobre o comportamento de consumidores na internet, mede o desempenho de campanhas de publicidade e analisa as condições em que produtos e serviços de clientes poderiam obter melhor desempenho, é uma área que pode ser auxiliada pelos robôs. Não faria mal a quem desempenha esse mister se matriculasse no MBA em Inteligência Artificial e também procurasse aprender um pouco de Machine Learning.

No Brasil, mais de dezesseis milhões de trabalhadores serão afetados pela automação. Terão de migrar para outras funções ou empreender. Um terço das funções de 70% da força de trabalho poderá ser substituído por robôs. A única receita é investir em capacitação profissional.

Há uma série enorme de decisões já tomadas por inteligência artificial. Se o homem não se adaptar a esse convívio, ele é que será descartado. A máquina não. Ela fica a cada momento mais inteligente. É exata, funciona, não se cansa e não reclama. Não vai à Justiça do Trabalho. Não falta quando fica doente.

O profissional que o mercado procura hoje tem de ter visão estratégica, raciocínio lógico, autoconhecimento, ambição, capacidade de influenciar pessoas e outras habilidades pessoais. Liderança é um conjunto de atributos, muito longe de emitir ordens. Adaptar-se ao mundo digital, acostumar-se com a obsolescência, exercer a futurologia e enxergar o que pode ser eliminado, o que pode ser facilitado, o que pode ser aperfeiçoado e o que pode ser criado como trabalho no porvir, tudo isso não se ensina na escola.

Uma coisa é certa: as habilidades pessoais nunca serão desempenhadas pelo robô. Há certas coisas que só o ser humano faz e isso precisa ser alvo de constante investimento. O Brasil ainda está longe da robótica. Na Coreia do Sul, há 531 robôs para cada 10 mil trabalhadores. Em Singapura, 398. No Japão, 305. Na Alemanha, 301. Aqui, apenas um robô para cada mil empregos humanos. Ou seja: 10 robôs para cada 10 mil brasileiros. Mas isso vai mudar. E quem se adiantar no seu preparo pessoal

estará anos luz à frente do concorrente. Última coisa: o robô não ouve o “Você está demitido!”. O empregador não enfrenta qualquer constrangimento quando o aposenta ou recicla. Mais um ponto a favor da máquina.

* Dr Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, palestrante e conferencista.