PMs visitam homem que sonhava ser PM

Texto: Carina Reis

A emoção tomou conta do ambiente durante o encontro entre Edielson Cruz, o ‘Edi’, o major Frederico Afonso Izidoro e o soldado Cleon Santos, representantes do 49º Batalhão de Polícia Militar do Interior, em sua casa, em Várzea Paulista, na manhã desta quinta-feira (29).

Desde pequeno, Edi sempre sonhou em ser policial militar, mas as responsabilidades para com a família o impediram de correr atrás de seu sonho. No ano passado, o pedreiro sofreu um acidente e está acamado desde então, em estado grave. Apesar da luta diária contra o estado debilitado de saúde e as dificuldades financeiras, a visita dos policiais e o presente especial que ganhou – uma camiseta da PM com seu nome bordado – deram forças para continuar em frente. “Significou tudo pra mim. Essa camiseta vai virar meu cobertor, não vou tirar mais”, disse, sempre com um sorriso tranquilo no rosto.

O bom humor do Edi, 37 anos, predomina em toda a casa. Segundo a irmã, Cleonildes Cruz, 39, é o sorriso dele que a motiva a prosseguir. “É muito difícil, não temos suporte algum, há dias em que me sinto completamente desanimada, mas ele é minha luz. Ele me chama para fazer companhia, me reanima”, contou, durante a visita.

Foi a ‘Cléo’, como gosta de ser chamada, quem ligou para a Polícia Militar para contar a história do irmão. Aliás, ela ligou no telefone 190, de emergência da PM. “Não estamos acostumados a receber uma ligação 190 com um pedido desses”, afirmou o major Frederico. “Mas essa é a principal função da Polícia Militar: atender a sociedade. Por mais atípico que seja o pedido, foi um prazer enorme estar aqui com o Edi. Ele é o novo ‘reforço’ do batalhão.”

Segundo Edi, ‘prender bandido’ sempre foi sua meta de vida. E a Cléo confirma a história: “Quando éramos pequenos, lá na Bahia, ele já corria atrás de todos os policiais militares que via para falar que um dia seriam colegas”, lembrou. Durante toda a vida, ele tentou encontrar tempo para estudar e passar no concurso da PM, mas as adversidades impediram. “Ele sempre cuidou de todos nós, trouxe todo mundo para São Paulo, ajudou a encontrar emprego, casa. Casou cedo, criou filhos”, também relatou a irmã.

Agora, no entanto, mesmo que simbolicamente, seu desejo foi atendido. “Eu posso dizer que sou um cara realizado. Peço aos colegas policiais militares que continuem trabalhando duro, porque Deus é bom e justo”, declarou Edi, emocionado.

Com o acidente, sua coluna foi fraturada em cinco lugares, o que fez com que passasse por diversas cirurgias. Ele ainda não consegue andar, mas já move uma das pernas. A expectativa é de melhora com a fisioterapia que deveria começar nesta quinta-feira, mas que perdeu devido à ausência de ambulância para transportá-lo. Ainda não há retorno da Prefeitura de Várzea Paulista a respeito do motivo para a falta de ambulância na data programada.

 

Motorista o atropelou e fugiu

O acidente que deixou Edi acamado ocorreu há um ano e dois meses, quando ele ia de bicicleta para uma obra em que estava trabalhando, em Ribeirão Preto. O motorista o atingiu e não prestou socorro. Por sorte, uma jovem que passava pelo local o socorreu prontamente. “Eu ia trabalhar com a minha marmitinha na mochila quando aconteceu. Ela salvou a minha vida”, disse a vítima.

Sua família, no entanto, não foi notificada, porque ele não portava nenhum documento de identificação no momento do acidente. Apenas dezoito dias depois, sua irmã foi acionada por um amigo da família que comunicou o desaparecimento de Edielson. “Ele tinha feito até mesmo um boletim de ocorrência. Eu peguei minhas coisas e entrei no ônibus na hora para Ribeirão, com apenas R$ 30. Passei fome, dormi na rodoviária, fiquei três dias sem tomar banho. E na cidade fui em todos os lugares a procura dele, mostrando a foto na tela do celular”, relatou Cléo.

 

Foi quando ela procurou a Delegacia de Polícia. “O delegado Maurício me ajudou, disse para eu ter fé. Eu estava quase desistindo. Ele pediu para uma viatura me levar ao Hospital das Clínicas para procurar por ele. E foi lá que o encontrei, registrado como paciente não identificado. Eu ajoelhei no chão e rezei quando o vi.”